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Câncer e Cultura Cívica
por Prof. Gláucio Soares

Karen e Earl Crabtree são jornalistas. Num maio, há vários anos, ficaram deprimidos e tristes com a história que tiveram que contar, de um casal que se suicidou. Semearam um realismo triste entre os leitores. Muitas pessoas se matam. Decidiram, então, compensar o teor negativo dos seus artigos, contando uma experiência positiva sua própria experiência na luta pela vida, contra o câncer da próstata.

Em janeiro de 1998, Earl teve que enfrentar o diagnóstico de um câncer de próstata muito avançado. O médico que o diagnosticou lhe deu três meses de vida. Earl não morreu no período previsto. Depois de 24 meses, o mesmo médico desistiu. Disse que não explicava o que acontecia. Ele deveria estar morto. Hora de mudar de médico. O segundo médico, depois de 18 meses (totalizando 42 meses depois do diagnóstico) também achou que Earl chegara ao fim da linha: “vá para casa e curta o resto de vida que tem.” Claro que Karen e Earl ficaram abalados, tristes, mas são lutadores. Buscaram mais um médico, o terceiro. Esse durou mais: quatro anos, perfazendo um total de sete anos e meio depois do diagnóstico inicial. Depois dos quatro anos, a situação estava tão ruim, que ele recomendou que Earl fosse para um hospice. Hospices não são hospícios, onde pessoas com sérias doenças mentais são internadas. Hospices são lugares onde se espera a morte confortavelmente e com bons cuidados paliativos. Earl não foi para um hospice, não morreu e continua lutando, ajudado por viver numa sociedade onde conta com o apoio de um grande número de organizações voluntárias.

Essa estória nos dá muitas lições. Uma, importante e específica, ensina que o paciente sempre deve buscar mais de uma opinião médica, inclusive quando o diagnóstico e/ou prognóstico são favoráveis. Medicina não é ciência exata e diagnósticos e prognósticos incluem uma parcela de opinião e chute. É bom ter mais de um médico. Mas a estória também nos transmite uma lição mais ampla, mais política, mais profunda, que tem a ver com a cultura cívica e com a iniciativa individual - das pessoas. Nos Estados Unidos, a combinação de iniciativa e responsabilidade individuais com cultura cívica produziu instituições contra os interesses corporativos, tão acachapantes no Brasil. Em São Francisco há um grupo de médicos que se chama "The Second Opinion" que examinará o seu caso e dará uma opinião sobre o melhor caminho. O telefone é publico (mas não grátis) e o idioma é o Inglês: 415-775-9956. Há um programa de informação e de ajuda com alguns gastos de pacientes de câncer, na TheAmerican Cancer Society, que qualquer um pode chamar: 1-866-444-7672. Há grupos de apoio e grupos de discussão em quase todas as cidades importantes sobre vários tipos de doença. Alguns hospitais organizam discussões, debates e reuniões. Um exemplo é o grupo que se encontra uma vez por mês no Davis Cancer Center eMercy San Juan Hospital. Há centenas desses grupos. Os americanos em situação difícil não buscam apenas o serviço público, buscam, também, outras pessoas, mais experientes, e organizações voluntárias.

Quero deixar claro que esse artigo não é uma defesa da organização da medicina nos Estados Unidos. Longe disso. Seu foco é a medicina curativa (e nisso são os melhores) e não na preventiva. A medicina é cara e os médicos, em boa parte, venderam a alma ao demônio por dinheiro. Nem é uma defesa da cultura políticaamericana, caracterizada por baixa participação e uma alta dependência da mídia.

O cerne desse artigo tem que ver com iniciativa individual, com a capacidade de organização da sociedade e com a cultura cívica. Há organizações importantes entre o individuo e o estado nas sociedades com uma cultura cívica participativa. O espaço entre o individuo e o estado é densamente povoado. Ironicamente, é um espaço povoado por laços interpessoais fracos e laços institucionais fortes.

Contudo, em nosso Brasil, ficamos esperando as iniciativas do Estado. Mas, francamente, ...o Estado Brasileiro? É um estado moralmente falido, com impostos suecos e benefícios africanos. Há poucas iniciativas e responsabilidade individuais. Transferimos todas as iniciativas e decisões pessoais importantes para “o governo”. A começar pela Constituição, que define a saúde como direito de todos e responsabilidade do Estado. Essa definição populista e demagógica levou a que uma parte gigantesca dos gastos públicos com a saúde derive de processos judiciais para cobrir gastos com remédios e tratamentos caríssimos que, em muitos casos, aumentam em somente semanas ou alguns meses a sobrevivência do paciente. É um recurso usado pela classe média e pelos ricos. Os mais pobres ficam sentados, esperando o que “o Lula dê”. Não nos organizamos, somos passivos. Ironicamente, somos bagunceiros civis que obedecem cegamente ao autoritarismo em todas as muitas instâncias em que ele nos toca, inclusive nas relações com os médicos. Se Earl fosse brasileiro, teria acreditado no primeiro médico e estaria morto. Ou pior: teria morrido sentado, de tédio, esperando que “o governo” resolvesse seus problemas de saúde.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ
Publicado no Jornal do Brasil. Junho, 2, 2009.

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PROF. GLÁUCIO SOARES